"O pai dele foi esquartejado", disse Jane Lúcia Souza Oliveira, tia de Mohammed D'Ali Carvalho dos Santos, de 21 anos, acusado de matar e esquartejar a inglesa Cara Marie Burke em julho de 2008, em Goiânia. A declaração foi feita durante depoimento no Tribunal do Júri de Goiânia, na manhã desta quinta-feira (14).
Ela é uma das testemunhas de defesa do réu e afirmou que o sobrinho (por afinidade) sempre foi uma criança problemática. "O pai dele, que era policial, saiu para pescar e nunca mais voltou. O corpo dele foi encontrado esquartejado. Até hoje o crime não foi resolvido. Naquela época, Mohammed tinha apenas 2 anos", disse a tia.
Mohammed durante julgamento no Tribunal do Júri (Foto: Glauco Araújo/G1)
Jane afirmou ainda que o sobrinho nunca teve um comportamento normal, mesmo antes do consumo de drogas. "Ele já foi internado em uma instituição para menores infratores. Já fugiu da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) de um hospital, pulando do segundo andar do prédio apenas de avental hospitalar. Ele só conseguiu um táxi ao pular na frente de um."
A tia disse que Mohammed chegou a comprar um revólver e o levava para a escola. "Ele chegou a agredir professores e colegas de classe." O promotor Milton Marcolino questionou a tia por ela não ter ido nunca a uma reunião de pais da escola e, por isso, não ter como saber com exatidão essas agressões. Neste momento, Mohammed começou a sorrir.
No depoimento, Jane disse Mohammed chegou a esfaquear o irmão Bruce Lee na barriga por ele ter mudado o canal de TV.
O julgamento
O juiz Jesseir Coelho de Alcântara, da 1ª Vara Criminal da capital goiana, é o responsável pelo julgamento. Mohammed chegou ao Tribunal de Justiça algemado e escoltado por seis policiais militares. Durante o julgamento, deve permanecer sem algemas.
Inglesa foi esquartejada em GO (Foto: Álbum de família)
Mohammed estava preso no Núcleo de Custódia de Aparecida de Goiânia desde 31 de julho do ano passado. Ele será julgado sob as qualificadoras do crime como o motivo fútil, uma vez que a jovem inglesa teria ameaçado contar à mãe do réu e a um policial militar que ele usava drogas. Segundo o juiz, outro agravante seria o ataque enquanto a vítima estava ao telefone.
Mais de 300 pessoas acompanham o julgamento e outras centenas esperam do lado de fora para poder entrar no plenário. Por volta das 6h, os interessados faziam fila no fórum da capital goiana. Todos passaram pelo detector de metais antes de entrar no local.
Quatro mulheres e três homens compõem o Corpo de Sentença. A defesa fez três recusas no sorteio feito pelo magistrado e o Ministério Público rejeitou apenas um dos sorteados. Os jurados devem permanecer isolados e incomunicáveis.
Cerca de 300 pessoas acompanham o julgamento (Foto: Glauco Araújo/G1)
Outros depoimentos
O julgamento começou com a leitura da acusação feita pelo Ministério Público. O texto fala sobre como o réu conheceu a vítima Cara Marie Burke, na Inglaterra, e sobre como o crime foi cometido, a golpes de faca. Em seguida, o corpo da jovem inglesa foi esquartejado e jogado em vários pontos de Goiânia e de Bonfinópolis.
A denúncia ainda fala sobre a crueldade exercida pelo acusado, que levou o corpo da vítima para o box do banheiro de seu apartamento, tirou uma fotografia da vítima, foi a uma festa e mostrou a foto para amigos. Ele ainda saiu para comprar uma faca profissional para que o corpo pudesse ser esquartejado. Uma nova foto foi feita pelo celular do réu e, mais uma vez, a imagem da vítima morta foi apresentada para amigos do acusado.
O tenente Cláudio de Oliveira Silva, da Ronda Tática Ostensiva Metropolitana (Rotam), foi o primeiro a ser ouvido pelo magistrado. Ele afirma que gravou uma conversa com Mohammed, na qual o acusado teria oferecido R$ 70 mil para ser solto, sendo R$ 50 mil à vista.
O juiz chegou a pedir silêncio ao plenário, avisando que poderá esvaziá-lo caso haja manifestações. Esse tipo de problema ocorreu quando o advogado de defesa fazia perguntas para o tenente Cláudio.
O segundo a ser ouvido no julgamento foi o porteiro do prédio onde ocorreu o crime, Domingos Leal da Silva. Ele disse que os moradores costumavam reclamar do som alto vindo do apartamento do réu, mas que nunca viu brigas no local. Silva afirmou ainda que viu Mohammed arrastando uma mala preta no dia 29 de junho de 2008. Ele viu o rapaz indo para a garagem e voltando, horas depois, a pé.
Os advogados Carlos Trajano de Souza e Odair Menezes, que representam o jovem Mohammed, já disseram que vão alegar que o réu confesso é portador de transtorno de personalidade antissocial, perturbação de saúde mental e dependência química.
Namorada
O juiz também ouviu a cabeleireira Helen de Matos Victória, 19 anos, namorada de Mohammed, que disse que ele tem distúrbios de comportamento. Segundo ela, o réu muda de humor constantemente. Ela informou que soube, depois da prisão dele, que o namorado consumia crack, cocaína e cheirava gás de cozinha. Neste momento, ela não se conteve e começou a rir, provocando a mesma reação no público presente.
Helen Victória presta depoimento no Tribunal do Júri (Foto: Glauco Araújo/G1)
Ela disse ainda que conheceu a vítima Cara Marie Burke, mas que não conversava com a jovem inglesa por causa do idioma. Helen afirmou que não tem medo de ser morta pelo namorado.
Filho e preconceito
Cara Marie Burke e Mohammed D'Ali chegaram a viver juntos, sem qualquer relacionamento amoroso, até a vítima se mudar para outro bairro, em Goiânia. A garota estaria com medo de Mohammed por causa do envolvimento com drogas.
Antes do crime, Mohammed começou a namorar com ela e o relacionamento continuou mesmo após a prisão dele. A fidelidade do namoro fez o réu virar pai ainda na carceragem. No dia 23 de março deste ano, a jovem deu à luz um bebê prematuro, de sete meses, em uma maternidade particular na capital goiana.
A cabeleireira disse que ficou grávida durante uma das visitas íntimas ao namorado. "Não tenho envolvimento com o que aconteceu, mas estou pagando com o preconceito das pessoas. Já tentei arrumar emprego, mas não consigo, as pessoas ficam me olhando e comentando pelas costas. Quando descobrem que sou namorada dele [Mohammed], desistem de me dar a vaga. Isso já aconteceu duas vezes."
Ela é uma das testemunhas de defesa de Mohammed no julgamento.
O irmão do acusado, Bruce Lee, que vive atualmente em São Paulo, também foi convocado pelos advogados de defesa. A mãe do réu, Ivany Carvalho dos Santos, não vai acompanhar o júri. A família não informa seu paradeiro.





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